Homilia para a Ordenação Diaconal dos Seminaristas Davi e Higor
Caríssimos irmãos e irmãs,
Hoje a Igreja se alegra. Alegra-se porque o Senhor continua a chamar. Alegra-se porque, apesar das fragilidades humanas, Deus não retira a Sua confiança naqueles que Ele escolhe. Alegra-se porque os seminaristas Davi e Higor respondem generosamente ao chamado para o diaconato, ministério antigo, venerável e profundamente enraizado na Tradição Apostólica.
Desde os primórdios da Igreja, o diaconato foi instituído não como honra, mas como serviço. Os Atos dos Apóstolos nos mostram que os diáconos surgem quando a Igreja cresce e percebe que não pode anunciar a Palavra sem, ao mesmo tempo, cuidar das necessidades concretas do povo de Deus. Por isso, os Apóstolos dizem: “Escolhei dentre vós homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria” (At 6,3). Não dizem: escolhei os mais eloquentes, nem os mais rigorosos, nem os mais apegados a formas externas, mas os cheios do Espírito Santo.
São Paulo, escrevendo a Timóteo, é ainda mais claro:
“Os diáconos devem ser dignos, homens de uma só palavra, não inclinados ao muito vinho, nem a lucros desonestos; conservem o mistério da fé numa consciência pura” (1Tm 3,8-9).
Aqui está o retrato do verdadeiro diácono: aquele que guarda o mistério da fé, não apenas nos lábios, mas na consciência; não apenas na aparência, mas na vida. O diaconato não é um enfeite, não é um título, não é uma estética. É uma cruz assumida livremente.
E isso precisa ser dito com toda clareza, especialmente neste contexto em que vivemos: ser diácono — e futuramente padre — mesmo dentro do Minecraft, não é sobre paramentos pixelizados, não é sobre rubricas perfeitas, nem sobre decidir qual missa é “mais tradicional”. Tudo isso pode ter seu lugar, mas jamais pode ocupar o centro. O centro é Cristo, e Cristo crucificado.
São Paulo escreve aos Coríntios:
“Nós não pregamos a nós mesmos, mas a Jesus Cristo, Senhor; e nós mesmos somos vossos servos por amor de Jesus” (2Cor 4,5).
E ainda:
“Ai de mim se eu não evangelizar!” (1Cor 9,16).
Eis a alma do ministério ordenado: evangelizar. Anunciar Cristo onde Ele ainda não é conhecido. Reapresentar Cristo onde Ele foi esquecido. Amar Cristo onde Ele foi rejeitado. Um diácono não é ordenado para si mesmo, mas para o outro. Não é ordenado para vencer debates, mas para ganhar almas. Não é ordenado para defender gostos pessoais, mas para defender a fé da Igreja.
Davi e Higor, ao receberem hoje a imposição das mãos, não recebem um prêmio, mas uma missão. São configurados a Cristo Servo, Aquele que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mt 20,28). O altar que hoje vos acolhe é o mesmo altar que vos exigirá fidelidade silenciosa, obediência humilde e caridade concreta.
São Paulo escreve aos Filipenses:
“Tende em vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus, que, sendo de condição divina, esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo” (Fl 2,5-7).
Este esvaziamento é o verdadeiro espírito do diaconato. Esvaziar-se do orgulho, da vaidade, da busca por reconhecimento. Esvaziar-se até mesmo da tentação de achar que o ministério se resume a formas externas. Porque onde há forma sem caridade, há apenas aparência; mas onde há caridade, ali está Deus.
Mesmo no universo do Minecraft — que é um meio, uma linguagem, uma ferramenta — o que se constrói não são apenas igrejas de blocos, mas consciências, vocações e fé. O mundo virtual não diminui a responsabilidade; pelo contrário, amplia-a. Porque ali também há almas, ali também há jovens, ali também há pessoas que precisam ouvir que Deus as ama, que Cristo morreu por elas e que a Igreja é mãe.
São Paulo escreve aos Romanos:
“Como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão, se não houver quem pregue?” (Rm 10,14).
Hoje, Davi e Higor são ordenados para pregar, não apenas com palavras, mas com a vida. Para servir à Palavra, ao altar e à caridade. Para serem pontes, não muros; pastores, não juízes; servidores, não donos.
Que Maria Santíssima, serva do Senhor, vos ensine o silêncio fecundo e a obediência confiante. Que São Lourenço, diácono e mártir, vos ensine que os verdadeiros tesouros da Igreja são os pobres e os pequenos. E que São Paulo vos acompanhe, para que possais dizer, ao final da caminhada:
“Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé” (2Tm 4,7).
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